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Volney Gouveia


 
 

Artigo na Revista O Professor - Página 43

http://www.youblisher.com/p/1661162-Revista-O-PROFESSOR-edicao-23/



Categoria: Economia
Escrito por Volney às 17h02
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Estrada Real - Caminho Velho

Estrada Real 1

Planejar uma viagem de 13 dias em cima de uma bicicleta é desafiador. Mas mais desafiador ainda é não planejar e dar tudo certo! Para resumir, o primeiro dia de pedal foi profundamente desafiador. Desafiador porque tivemos de percorrer muito mais do que estava planejado e sob condições muito específicas: viajamos a partir de SP por 11 horas (portanto dormimos pouco), não tomamos aquele café da manhã mais reforçado (apesar de ter procurado pela cidade algo mais substancioso e não ter encontrado), não almoçamos (alimentamo-nos à base de água, castanhas e isotônicos) e percorremos 20 km a mais em relação aos 65km previstos inicialmente. Diria que a viagem transcorreu bem até os 50 km. Os 7 km iniciais já foram muito íngremes (na viagem subimos 1450 metros), mas ainda estávamos com gás e disposição para encarar os quilômetros seguintes. Mas o corpo aguentou firmemente até os 50 km. A partir daí descobrimos, em Santo Antônio do Leite, que ainda teríamos mais 35 km ate Ouro Branco, que era nosso primeiro destino. Passamos no mercadinho local e nos abastecemos com isotônico e água. Também tentamos comprar umas bananas, mas não conseguimos (ah estas bananas, em vários lugares que perguntávamos não tinha banana, por incrível que pareça!). Mas seguimos os 35 km nas estradas sinuosos e de muitas subidas e descidas. Em vários momentos a paisagem aberta nos impressionava, com as montanhas e verdes ao fundo e as nuvens de chuva se formando. O cheiro de eucalipto pela estrada surgia de repente. Fomos seguindo e as paradas aumentarem de frequência. Começamos a ficar cansados e um peso no corpo que nos fazia imaginar que Ouro Branco poderia estar na próxima curva. A hora avançava e ainda faltavam 30 km para a chegada. E esta era uma previsão considerando o tempo médio de 8 km por hora. Mas as subidas infinitas fez com que passássemos a prever a chegada em Ouro Branco às 23:00! O número de subidas era infindável. Estávamos deveras preocupados em não chegarmos às 17:30, como previsto inicialmente. Começamos a sentir câimbra e cansaço, aquele que nos derruba de tal forma que queremos apenas uma cama para deitar (nos vários momentos que paramos para hidratação e alimentação tínhamos de sentar na margem da estrada, pois não víamos bancos, árvores ou qualquer outra coisa na qual pudéssemos sentar confortavelmente). As cãibras se atenuaram e o cansaço dominou. A viagem longa, a ausência de café da manhã e almoço e o longo trecho não previsto nos atingiram em cheio: estávamos desidratados, baixo nível de glicose, fome e muito, mas muito, cansaço. Por alguns instantes cogitamos a possibilidade de pedir carona. Mas quando pensávamos na hipótese não passava sequer um carro. Então seguimos adiante. Comecei a perder força e diminuir o ritmo do pedal. E já estava certo para nós que chegaríamos muito tarde e teríamos de pedalar à noite, o que tentávamos evitar. Em alguns momentos sentia que estava tendo vertigens. Pensava tanto em tomar água e comer ao menos uma banana para tentar repor os líquidos e o nível de glicose. Já havíamos pedalado bastante tempo, mas ainda faltavam 22 km para a chegada. O pensamento estava na superação; o corpo se alimentava com "o cheiro da gasolina". O nível de cansaço, fome e sede era alto. Percebi um filete longo de água que corria pela lateral da estrada, sugerindo que ali por perto havia alguma mina. Animei-me, fiquei atento e vi ao fundo que parecia haver uma torneira forrada com um plástico azul.  Mas era vertigem, porque ao se aproximar percebi que era apenas uma folha com reflexo da luz do dia. Em certo ponto, vendo uma poça de água mais profunda, retirei a botija e resolvi enchê-la com aquela água de canto de estrada. A água era límpida, não parecia ser imprópria para o consumo, mas arrisquei-me porque a sede era muita. Aproveitei para tirar o capacete e lavar a cabeça e o rosto. Refresquei-me um pouco, mas ainda assim com muita sede e fome. Continuamos subindo na esperança de que estaríamos próximo, mas o medidor registrava que ainda faltava muito. Em certo momento, subindo pela estrada, visualizamos uns pés de banana e imaginamos que ali poderia haver algumas as quais pudéssemos comer. Também tive uma leve vertigem: enxergava um saco plástico encobrindo um cacho de bananas, mas que não passava de uma folha de bananeira amarelada. Mas quando olhamos para o outro lado da estrada, deparamo-nos com uma casa simples e resolvemos "pedir socorro". Batemos palmas por uma, duas, três vezes e ninguém atendia. Ouvíamos uma música que vinha de dentro da casa. As portas e janelas estavam trancadas, o que nos fez pensar que os moradores saíram e deixaram a música tocando para disfarçar algum intruso eventual. O cansaço, a fome e a sede batiam fortes! A ponta de esperança de encontrar alguém se esvaiu. Decidimos continuar nosso caminho. Mas ao subir a estrada e olhar para a lateral da casa, percebi alguém na janela e um sentimento de alegria tomou conta! Perguntei se podia nos fornecer água e a resposta foi positiva. O senhor Geraldo foi à porta nos atender e trouxe um litro de água bem gelada. Estava tão gelada, e meu corpo tão quente, que senti uma dor estranha na garganta, resultado de choque térmico. Mas a sede era tão intensa que aquela água foi providencial! O senhor Geraldo aparentava ter quase 80 anos e uma mente lúcida. Trocamos uma prosa e agradecemos muito pela gentileza da água. Tomei a liberdade de perguntar se ele tinha bananas, já que tinham vários pés da fruta em frente à sua casa. Prontamente nos atendeu trazendo um cacho de bananas e nos deixou livres para quantas quiséssemos. Tudo aquilo parecia um banquete! A simplicidade do senhor Geraldo, e sua generosidade, chamou-nós a atenção! Perguntamos sobre o caminho até Ouro Branco e outra novidade: o caminho a seguir era praticamente de descida e não demoraríamos muito para chegar até o trevo da cidade de Ouro Branco. Água, banana e altimetria foram o prêmio para tanto engajamento, esforço e força no pedal até ali! Agradecemos muito ao senhor Geraldo pela gentileza e saímos muito satisfeitos. No decorrer do caminho, gradativamente fui retomando a força e os sentidos. Sentia-me mais hidratado e disposto. O trajeto foi praticamente de descida. Refizemos os planos e achávamos que, se mantivéssemos aquele ritmo, chegaríamos às 19:30, um pouco antes ainda do anoitecer. A descida foi forte e o ritmo bom. Descíamos a uma velocidade de 25km/h e o corpo retomava suas energias! Sentia-nos bem melhores! Chegamos ao trevo e viramos sentido Ouro Branco. Já eram quase 19:00 e uma nuvem preta se formará na nossa direção. Esporadicamente um raio estridente surgia entre as nuvens há alguns quilômetros de nós. Tentamos acelerar o pedal porque queríamos evitar pedalar na chuva, nem tanto pela chuva, mas sobretudo pelos raios. Não teve jeito. Gotas grossas começam a cair sobre nós e rapidamente paramos no acostamento e vestimos as capas. A chuva foi gradativamente aumentando e o escuro tomou conta. Reiniciamos o pedal rumo a Outro Branco. Faltavam-nos apenas alguns quilômetros. A chuva já caia torrencialmente. Os raios surgiam e davam aquele enorme brilho no céu! Seguimos firmes no pedal, enfrentando de frente o vento, a chuva e a escuridão. Realmente aquilo tudo foi empolgante. Há muito não presenciava uma situação tão pitoresca! Já na escuridão da estrada tivemos de parar para olhar o mapa eletrônico e nos posicionar geograficamente. Tivemos uma logística complicada para visualizar ao celular, porque a chuva caía forte e tivemos de improvisar uma "cabaninha" com a capa de chuva. Enquanto a chuva caía intensa, estávamos naquele breu no acostamento da estrada tentando nos localizarmos. Ao fim, depois de algumas voltas, chegamos ao aposento do primeiro dia de Estrada Real. Banho, um maravilhoso jantar, uma enorme receptividade e um cantinho aconchegante para dormir e descansar. Estes foram o prêmio da grande viagem do dia!

11 horas de Viagem de Ônibus

Sem cafe da Manha e almoco

Subida para Glaura - 7km

 

Trajecto: Ouro Preto, Sao Bartolomeu, Cachoeira do Campo, Santo Antonio do Leite, Ouro Branco



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 22h42
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Estrada Real 2

O circuito do segundo dia foi Ouro Branco, São Brás do Suaçui e Entre Rios de Minas. Foram 60km de pedal em 5 horas e 10 minutos e velocidade média de 11,6 km/h (para vcs terem uma referência, é a velocidade de uma pessoa correndo praticando esporte).

A dinâmica da viagem do segundo dia foi diferente. Nesta estávamos descansados e alimentados. Analisando o percurso, tínhamos a tranquilidade de que chegaríamos cedo a Entre Rios de Minas e teríamos mais tempo para retomar o fôlego e descansar. Já na saída de Ouro Branco nos deparamos com uma subida na rodovia sob um sol forte às 10:00 da manhã. Seguimos um bom trecho pelo asfalto e a vista (e a velocidade) era maravilhosa. Orientado-se pelos mapas, deixamos a rodovia e acessamos o trecho de terra rumo a São Brás do Suaçui. O trajeto foi de muitas subidas e descidas e tivemos muito tempo para pensar na vida sob o sol escaldante. Imaginar coisas e se questionar a formação de tudo aquilo que estava à nossa volta. Até a cidade de São Brás não tivemos muitos problemas e chegamos já no início da tarde. Paramos numa sombra de coqueiros em frente da igreja central e depois passamos numa mercearia e, finalmente, encontramos bananas. Já compramos meia dúzia para garantir (vcs não imaginam como nós adoramos bancas neste tipo de viagem!rs). Saímos da cidade rumo a Entre Rios. No decorrer do caminho é possível ver os pontos de sinalização do caminho (totens), os quais  orientam os turistas sobre as condições do caminho ou sobre algum fato histórico da região. Depois de pegar uma chuva que ameaçava ser forte, mas recuou, ouvi ao longe um barulho que vinha aumentando gradativamente, até nos darmos conta de que havia uma linha de trem há alguns metros morro acima. Ao chegarmos próximo da linha, enquanto a composição de 140 vagões passava, olhamos o totem da cidade real que indicava que o caminho era de muitos altos e baixos, entrecortados por riachos, e que tornaria a viagem cansativa. Mas eis que surge um garoto subindo a estrada e nos informa que a estrada estava em ótimas condições e que poderíamos seguir rumo a Entre Rios sem problemas (concluímos que, pelo fato dos totens serem mais antigos, houve tempo para a reforma de trechos da estrada). Depois de passado o trem, demos uma pausa sobre a linha para contempla-lá e tirar algumas fotos. Este foi um momento de reminiscências, porque viajei no tempo e lembrei dos tempos de infância quando assistia ao trem passar próximo à casa da minha avó também em Minas). Depois de seguir caminho, conseguimos chegar à cidade por volta das 17:30. Consideramos o tempo tranquilo porque teríamos tempo para organizar as coisas e depois descansar. Mas encontrar a pousada na cidade foi um capítulo à parte. Acabamos por percorrer mais 15km pela cidade para finalmente encontrar a Pousada Tropical Tropilha. Usamos "waze" e "Google maps" mas sem sucesso! Parecia que a cidade não estava no mapa. Depois de circular por 5km, deparamo-nos com uma placa em alguns postes de luz indicando a Pousada da Vovó Edith. Só o nome já nos motivava a procura-lá! Avançamos 3km para fora da cidade em busca da pousada. E antes de irmos , pesquisamos antes uma pousada que estava a 400 metros do ponto no qual estávamos, mas decidimos seguir porque o "waze" já havia nos "pregado uma peça antes. Pegamos um serra extensa e, no caminho, um garoto que passava nos informou que a pousada estava a uns 3 quilômetros. Seguimos adiante e não encontrávamos. Depois de um dia extenuante, ter de pedalar muito para encontrar uma pousada era tudo o que menos imaginávamos. Depois de alguns sobes e desces, já estávamos desistindo porque estava ficando tarde. Distanciávamos da cidade e a área rural dominava nosso entorno. Depois de algumas subidas e descidas, já pedalando por algum tempo, parei sobre um ponto de descida na estrada e decidimos que, se depois da curva à frente não avistássemos a pousada, voltaríamos para a cidade e procuraríamos outra. Mas ao descer e iniciar a curva à esquerda visualizamos a placa da pousada. Realmente uma grande coincidência. O aceso à pousada era longo. Passamos pela porteira e descemos uns 300 metros. Visualizamos um complexo de casas e nada parecia uma pousada. Não havia uma alma sequer! A frustração tomou conta! Circulando pelo local, chegamos à pousada e encontramos tudo fechado! Decidimos então voltar para Entre Rios. E toda decisão vem seguida de uma novidade! Eis que surge o senhor Kleber do nada e a esperança se reacendeu! Pensamos: "teremos onde dormir!" Mas foi somente até ele falar que não tinha vaga disponível! Então tivemos de retornar à cidade para finalmente encontrar a pousada Estancia Troupilha, cujo proprietário era de um simpático senhor chamado João José (com este nome estávamos abençoados! Rsrs). Ele nos atendeu prontamente e a prosa durou por alguns minutos enquanto lavávamos as bicicletas. Em seguida ele nos ofereceu um café da tarde regado de bolos, biscoitos e queijo. Convidou-nos a sentar à mesa de sua própria casa. Sentimo-nos à vontade e a prosa continuou. Partimos depois para a cidade para jantar. Foi uma refeição sensacional que nos permitiu unir a fome com a vontade de comer: comida simples que tinha arroz, feijão, tutu, farofa, couve e bife acebolado. Era tudo que precisávamos! Na volta ainda deu tempo de degustar uma açaí no centro da cidade (fiquei com saudades do meu de casa, confesso). Depois de satisfeitos, hora do banho e de dormir para encarar os 60km do dia seguinte. Em breve o diário do terceiro dia! Hehe

 

Estrada Real 3

Vocês já ouviram a estória da lebre e da tartaruga? Pois é! Quando assistimos como crianças ficávamos nos perguntando como é que podia uma bicho mais rápido que o outro chegar em último lugar. Não compreendíamos a razão de a tartaruga vencer a lebre! O fato é que tal estória reflete um autêntico ditado popular: quem não espera come cru! Depois de um autêntico café da manhã com o senhor João José (na falta de um tem o outro! Kkk), que nos acompanhou na mesa e proseou mais um bocado, partimos para a próxima cidade, Tiradentes. O primeiro destino foi a cidade de Casa Grande, distante 30km, e depois Lagoa Dourada, distante 28km. Para se ter uma ideia do caminho, basta pensar num trajeto longo de subida seguido de curtas descidas íngremes. Basicamente foi este o caminho, sem contar o calor intenso que cozinhava nosso cérebro! Por diversos momentos tivemos de parar para hidratação (água e isotônico) e comida (castanhas, paçoca e........banana!). Já no início do caminho tivemos uma surpresa agradável: encontramos o senhor João subindo a estrada com seu fusca azul puxando uma carroceria carregada de folhagens de pasto. Paramos para mais uma prosa e aproveitamos para registrar o encontro em foto. Seguimos viagem e o calor aumentava. O trajeto estava mais ameno, com subidas menos íngremes e descidas mas íngremes, o que nos permitiu avançar a uma velocidade maior e fazer planos mais alvissareiros: chegar em Tiradentes. Mas as condições climáticas não permitiram, porque o cansaço começou a bater e recorrentemente refazíamos os planos. Chegamos em Casa Grande e a primeira providência foi comprar água e lubrificar as correntes das bicicletas (por sorte tínhamos a mercearia e a loja de motos bem ao lado uma da outra!). Seguimos rumo à Lagoa Dourada e o percurso, apesar de "tranquilo", nos fazia mudar de planos várias vezes. A fome começou a bater forte. Subimos uma serra relativamente íngreme e nos deparamos com uma grande área com silos e coberturas para criação de galinhas e porcos. O cheiro não era nada convidativo, mas o trajeto era curto e deu pra suportar. Ao final da estrada chegamos à BR 383 que dava acesso á Lagoa Dourada. Uma descida íngreme pelo asfalto nos fez ganhar mais algum tempo. Adentramos a cidade exatamente às 15:45. No caminho, víamos placas indicando um restaurante próximo. Chegamos nele e conseguimos, apesar do horário, degustar um avantajado PF. O cansaço dominou e decidimos que ficaríamos na cidade. Informamo-nos sobre pousadas e partimos para a Pousada das Vertentes. Uma simpática senhora (Dona Aide) nos atendeu e nos acomodou. Por ainda estar relativamente cedo, conseguimos ainda sair para comprar água e comer os famosos Rocamboles de Lagoa Dourada. Posso garantir que não me lembrava de ter comido algo tão gostoso! Retornamos à pousada e tive tempo ainda de colocar este diário em dia. Amanhã partiremos rumo a São João Del Rei (54km). Esperamos que o caminho esteja a nosso favor! Em breve o diário do quarto dia! :)

 

PS: Sobre a estória da lebre e a tartaruga, referia-me ao fato de, no início da viagem,  acelerarmos o pedal para chegarmos mais rápido. Só que, ao fazer isto, o cansaço batia mais rápido e perdíamos o gás nos trajetos finais, não adiantando muito a pressa. Descobrimos que era melhor pedalar em ritmo médio, parando alternadamente e se alimentando, do que sair como umas lebres desembestadas! Kkkk



Escrito por Volney às 22h42
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Estrada Real - Caminho Velho

Estrada Real 4

Toda vez que vemos fotos de cicloturismo temos uma sensação boa. Em primeiro lugar vem a ideia de que a experiência é fascinante, que visitamos lugares lindos, apreciamos as belas paisagens, respiramos ar puro, conversamos com as pessoas pelo caminho, experimentamos sabores diferentes etc. De fato é tudo isto e mais um pouco. A experiência te permite refletir sobre a vida, questionar valores, traçar novos planos, testar seus limites psicológicos (quando a bike quebra em lugares esmos, ou quando o próximo destino está longe de chegar, seu físico já está no limite e ainda está escurecendo!). Mas tem outro lado não percebido: o nível mínimo de preparo físico e psicológico para encarar a empreitada. Nos últimos dias, um quilômetro tem parecido dez quilômetros. Você pedala, e pedala, e pedala, e avança relativamente pouco. São várias as condições sob as quais o cicloturismo se torna um desafio: temperatura, chuva, sol, tipo de estrada, inclinação do caminho, quantidade de subidas e descidas, qualidade do terreno etc. Neste quarto dia de pedal, saímos de Lagoa Dourada, da Pousada das Vertentes, de propriedade da simpática senhora Aidê, e aonde nos hospedamos em quarto simples, mas adequado para descansar. Pela primeira vez chegamos cedo na cidade no dia anterior. Não poderia deixar de experimentar os famosos Rocamboles da cidade. E realmente são bons! Recomendadíssimo! Mas tínhamos pela frente 54km rumo a São João Del Rei, passando por Prados, Bichinhos e Tiradentes. No geral o pedal foi dentro do esperado, com subidas menos íngremes e descidas mais fortes, passando por pastagens cobertas de eucaliptos. O calor próximo dos 35 graus de fato foi o grande obstáculo. Por diversas vezes tivemos de empurrar a bike morro acima para poupar energia. Parávamos na metade do caminho para retomar o fôlego e prosseguir. Nas descidas mais fortes, quando pensávamos que seria mais fácil, muito pelo contrário. Atenção redobrada para não escorregar, mãos nos freios, descendo de pé e alternando continuamente as marchas para adequar a velocidade ao terreno. Estas situações geram certo nível de estresse, porque as descidas são irregulares e você deve descer freando. Ao final do percurso suas mãos, costas, batata da perna, pés estão todos doloridos (este é o lado do cicloturismo que não te contam! rs). A chegada a Tiradentes foi mais ou menos nestes termos: pedalamos aproximadamente 10km de estrada com calçamento de pedra, um horror para pedalar! Além de a bicicleta sofrer alta vibração, seu corpo sofre com os impactos, agravados pela situação de calor. Mas apesar do caminho mais irregular e desconfortável, chegamos às 15:00 em São João Del Rei, dando tempo de passar numa bicicletaria para alguns ajustes. Depois de nos acomodarmos na Pousada Sinhá Moça, organizamos os preparativos para o quinto dia de pedal, cuja previsão é de 70km!

 

Estrada Real 5

O percurso de hoje somou 77,3km. Saímos de São João Del Rei às 08:45 e chegamos em Carrancas às 19:00. Foram quase 10 horas de pedaladas (não fiscais...kkkk). Tomamos um café da manhã super avantajado, o que me garantiu os suprimentos necessários para encarar o dia. Como sabia que possivelmente não almoçaríamos, caprichei no café da manhã. O destino do dia seria São João, São Sebastião e, por fim, Carrancas. Já na saída de São João adentramos uma trilha na mata. Gradativamente o caminho foi desaparecendo e dando lugar trilha de pedras. Inicialmente subimos um trecho para, na sequência, atravessar o primeiro rio. Tiramos os tênis, atravessamos e os calçamos. Em diversos segmentos da trilha existiam poças d'água, acompanhadas de Barros pelos lados. Por duas vezes atolei o pé e, desde então, desisti de tirar os tênis: passei a atravessar os riachos com tênis e tudo! Ao final da trilha já estava sujo de barro e com tênis e meias encharcadas. Fomos aos poucos saindo da trilha e entrando na estrada de terra. Depois de 38km, chegamos à cidade de São Sebastião. Paramos basicamente para descansar um pouco e comprar água. E já seguimos rumo à Carrancas, passando pelos vilarejos de Caquende e Capela do Saco. O acesso de um vilarejo a outro só é possível de ser realizado com balça. Chegamos à Caquende às 14:45 e às 15:00 atravessamos de balsa. A experiência foi interessante porque da balsa é possível perceber a extensão da represa. O local é aberto e te permite ter uma visão bastante ampla do local. Quando estamos há quatro quilômetros de Caquende, do alto das montanhas, é possível enxergar de longe a extensão de água a quilometro de distancia. Depois de atravessar, partimos para Carrancas às 15:15 com precisão de chegar a Carrancas às 18:00. O caminho foi muito agradável, mas já estávamos exaustos por ter percorrido dois trechos longos de aproximadamente 30km cada. O terceiro trecho (Caconde-Carrancas) nos reservou muitas surpresas, agradáveis e desafiadoras. As agradáveis ficaram por conta do caminho relativamente plano e da paisagem de tirar o fôlego. Por diversos momentos paramos para fotografar nos vales, riachos, pontes, e topo de montanhas. Imagine um céu azul com poucas nuvens; um caminho com subidas leves, um visual maravilhoso; e um sol escaldante de tirar o couro da cabeça. Ao contrário dos dias anteriores, não houve se quer ameaça de chuva. Então às 15:00 o sol tentou de toda forma nos infortunar (pela primeira vez tive de repassar filtro solar para suportar o caminho). Seguimos adiante e o marco da Estrada Real indicava que faltavam 13kmpara chegarmos a Carrancas. Mas estes últimos quilômetros foram absurdamente exaustivos, parecido um pouco com o do primeiro dia. A desidratação era intensa e a fome começava a atacar. Quando faltavam 8 quilômetros para chegarmos, deparamo-nos com um paredão de rochas que entrecortava as montanhas. Inicialmente pensamos que daríamos a volta nela. Mas o caminho foi nos levando para o próprio paredão. Transitamos em zig-zag e iniciamos a subida do paredão pela estrada de terra e pedras. Foram os 4 quilômetros mais longos! Boa parte do percurso era de subida e nossas pernas, braços e cabeças já não tinham o mesmo pique do da manhã. Certo momento, ouvimos o barulho de cachoeira e, ao olharmos para nossa direita, deparamo-nos com uma corredeira cujo leito formava uma bacia de água. Tamanho eram o calor e o desgaste físico e mental, que descemos a margem da estrada, tiramos a camiseta e os tênis, e tomamos um banho por alguns segundos para relaxar. Certamente foi divino aquele mini-banho para retomada do fôlego. Seguimos viagem e o calor incessante não parava. Outro barulho de cachoeira se ouviu e nos deparamos com uma queda d'água na lateral da estrada. A água era extremamente límpida e pensei que poderia beber, apesar de não estar certo da procedência. Então levei minha garrafa e a enchi com água da cachoeira. Ingeri-a imediatamente e pensei que, se não fosse apropriada para consumo, teria reações imediatamente. Mas até o momento de término deste diário tenho me sentido muito bem!!!hehe Ainda tivemos a surpresa de um casal que subia a estrada de Jeep e paramos para trocar algumas palavras. Os próximos quatro quilômetros seriam uma penitência: pedalava, subia; pedalava, subia e a cidade não chegava! Por várias vezes paramos para hidratação e descanso. E o sol cozinhava nossos cérebros! Fomos aos poucos percebendo que o alto do morro se aproximava e que a subida estava no seu fim. A paisagem foi se abrindo aos poucos à nossa frente e foi possível enxergar a imensidão de montanhas à nossa volta e a represa ao fundo. Uma vista simplesmente sensacional. Era como se tivéssemos obtido um prêmio por todo o esforço empreendido. Paramos por alguns minutos para apreciar a vista e tirar algumas fotos. Seguimos até o topo do Caminho e começamos a descida de três quilômetros até Carrancas. A baixa velocidade que tivemos na subida foi compensada pela descida. Os quatro últimos quilômetros até Carrancas eram praticamente de descida. Aceleramos e chegamos, depois de muita expectativa, à cidade. A primeira providência foi encontrar uma pousada, depois tomar banho e sair para jantar. Finalmente a hora mais desejada do dia: descansar! Dormir muito para repor as energias, porque amanhã será dia de cachoeira e um novo destino: Cruzilia.

Em breve mais notícias! Abs e bjs!

Estrada Real 6

 

Ufa! Sexto dia finalizado com garra, energia, curtição e desafios! Hoje foram 68km de Carrancas a Cruzília, passando por Traituba, desenvolvendo velocidade média de 10,8 km/h. Até agora contabilizamos aproximadamente 410km de pedal. Ainda temos outra metade pela frente. No decorrer do caminho de hoje mudanças de planos: caso cheguemos em Paraty, pretendemos "esticar" até Ubatuba. Tudo dependerá das nossas condições físicas e psíquicas! Mas o caminho de hoje foi tranquilo. Apesar do sol ardente, conseguimos desenvolver boa velocidade, exceto não fossem as condições da estrada, com muita pedra e ondulações, o que impedia de se desenvolver maior velocidade. Já saímos de Carrancas sabendo que poderíamos ter problemas com a água, pois não haveria bares ou restaurante pelo caminho. E de fato era isto mesmo. Quando passamos o arraial de Traituba, nossas águas já estavam praticamente no fim. É o jeito foi recorrer à única casa de beira de estrada que encontramos. Adentrei o quintal da fazenda e a Senhorita Valeria nos atendeu. Serviu-nós dois grandes jarros de água e pudemos nos reabastecer. E foi providencial aquela água, porque tivemos de encarar 30 km seguintes sem qualquer condição de obter água. O sol deu uma trégua no meio da tarde, quando as nuvens de chuva encobriram o céu e a temperatura tornou-se mais amena, melhorando nosso condicionamento físico. Pelo fato de ter sido mais tranquilo, conseguimos hoje conversar mais. Fizemos um balanço sobre as pousadas e restaurantes que frequentamos e concluímos que a relação custo x benefício vai melhorando na medida em que avançamos para o sul do estado (exceto quando paramos em Ouro Branco, que foi a única cidade até agora na qual pudemos apreciar um delicioso prato tipicamente mineiro!). O preço médio que temos pagado na hospedagem e nas refeições tem sido o mesmo em todos os lugares até agora, mas a qualidade e o atendimento têm sido radicalmente diferentes. Em algumas pousadas sobra simpatia, mas falta serviço; em outras o serviço é adequado, mas falta simpatia; e em outras faltam os dois! Mas tem outros que tem os dois (Ouro Branco e Cruzilia). A chegada em Cruzília nos impressionou positivamente. Primeiro porque a pousada (com o mesmo nome da cidade) está integrada ao restaurante (nos últimos dias temos saído à noite a procura de restaurantes para comer). Em segundo porque as instalações são muito melhores e o nível de conforto muito maior, e tudo isto ao mesmo preço que pagamos em pousadas anteriores que não tinham a metade. Depois de nos acomodarmos, fomos jantar e tivemos a surpresa agradável de conhecer o Lelinho, uma figura de estatura média, cabelos curtos e muito simpático! Ele é o dono da pousada e do restaurante e cruzou conosco no caminho do restaurante. Começamos a conversar e ele nos sugeriu um dos pratos da casa: o Filet Mignon Chateaubriand. Mas qual não foi nossa surpresa quando, já no restaurante, o próprio Lelinho foi o responsável por preparar nosso prato. Teve ainda a atenção e o cuidado de ir à nossa mesa, devidamente vestido de cozinheiro, e nos perguntar sobre como preferíamos o corte da carne! À parte o prato em si, que estava divinamente bom - principalmente para dois ciclistas famintos -, o que nos chamou a atenção foi sua simpatia e carisma. Já ao final da refeição, dirigiu-se à nossa mesa, sentou-se conosco, e começou a contar a sua história, além de explicar como surgiu o prato que havia a pouco nos servido. De fato foi uma experiência agradável: viagem tranquila, pousada agradável, restaurante de excelente qualidade e a hospitalidade muito distinta das anteriores. Hora de descanso porque amanhã a próxima parada será São Lourenço. Abs e bjs! :)



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 22h41
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Estrada Real - Caminho Velho

Estrada Real 7

A estada em Cruzília foi a que mais surpreendeu em comparação à pousada de Carrancas: muito mais confortável e preço até menor! Ficamos bem acomodados e nos alimentamos bem. Tivemos de remontar toda a bagagem nas bikes e adotar o procedimento de praxi: roupas leves, protetor solar até aos cabelos, abastecimento de água, isotônico e bananas, e ajustes nas bikes. Saímos de Cruzília rumo a Pouso Alto. A previsão seria pegar uns 70km. As viagens pela manhã, neste verão de 2017, têm sido muito agradáveis, apesar das subidas iniciais comuns a todas as cidades. Temos levantado mais cedo para aproveitar melhor o dia, iniciando os pedais às 08:00. Os primeiros quilômetros depois de Cruzília foram tranquilos: terreno mais plano e com mais descidas. O ar estava fresco e o caminho tinha mais sombra. Mantivemos velocidade média constante, garantindo certo ritmo da viagem, e ao mesmo tempo permitindo apreciar o visual à nossa volta. A chegada à Caxambu foi relativamente rápida e já partimos para São Lourenço, aonde pudemos parar por mais tempo para apreciar as delícias da Panificadora San Remo. Depois de 40 minutos, partimos rumo a Pouso Alto, cidade próxima a uma distância de 18km. Já no caminho decidimos que, caso mantivéssemos aquele ritmo, poderíamos avançar até Passa Quatro, cidade distante 50km de São Lourenço. Às 15:30 chegamos em Pouso Alto, depois de mais uma tarde de muito sol e trechos de serra mais íngremes. Cruzamos a cidade pela rodovia e, pela rodovia mesmo, partimos rumo a Passa Quatro. Tivemos atenção redobrada porque a rodovia não tinha acostamento e a movimentação de carros era grande em função do domingo. Desenvolvemos boa velocidade, pegamos chuva pelo caminho - o que nos ajudou a nos refrescarmos - e subidas mais longas. Chegamos em Passa Quatro no final da tarde e tínhamos de providenciar pousada: poucas opções em um final de domingo. Acomodamo-nos na Pousada São Rafael (que, comparativamente à anterior, piorou muito a nossa relação custo/beneficio e saímos em busca de um restaurante, distante quase 2 quilômetros da pousada! O jantar não foi o "the best", mas justo nas nossas circunstâncias. O objetivo amanhã é seguir rumo a Guaratinguetá, passando pela Vila do Embaú. Atravessaremos a divisa dos estados de MG e SP e desceremos a Serra da Cantareira. Em breve a descrição de como foi a experiência. Saudações reais! :)

 

Estrada Real 8

Hoje foi dia ajustes das bikes e de Correios. As primeiras providências foram trocar as partilhasse freios e regular outras partes e também passar nos Correios para despachar 9kg de roupas! A ideia era se livrar de peso morto. Teríamos mais de 80km no dia! Saímos de Passa Quatro às 10:00 rumo à Vila do Embaú e, depois, Guaratinguetá. Os procedimentos dos últimos dias têm sido sempre o de acompanhar os marcos da Estrada Real como guia. Por diversas vezes paramos para conferir a numeração do marco com aquela registrada em nossa folha. Assim pudemos verificar se estávamos no caminho certo. Mas nem sempre estas sinalizações te ajudam. Pegamos a rodovia e depois de alguns metros acessamos a estrada de terra, seguindo o marco à direita da estrada. Pedalamos uns 300 metros e chegamos a uma encruzilhada na qual não havia a sinalização. Resolvemos seguir pela direita, mas, já depois de 100 metros, resolvi perguntar ao senhor de uma casa se ali era a Estrada Real. Resposta negativa e então voltamos à encruzilhada. Pegamos à esquerda. Começamos a subir muito. Atravessamos várias porteiras. Chegamos a bifurcações e nenhum sinal de marco da Estrada Real. Por três vezes nos deparamos com um grupo de vacas e bois no meio do caminho, os quais tivemos de espantar avançando com a bicicleta sobre eles. No primeiro desvio, chegamos a um curral sem qualquer saída alternativa. Voltamos à bifurcação de porteiras e tomamos outro caminho. Mais umas vacas e bois pelo caminho e avançamos morro acima pela trilha. Deparamo-nos com uma porteira trancada à cadeado. Neste momento tivemos a certeza de que estávamos em caminho totalmente errados. Tivemos de retornar à estrada de asfalto, local aonde se encontrava um dos marcos. Descemos todo o percurso enfrentando decidas fortemente íngremes e cheias de pedra. Mas a descida foi mais rápida. Ao chegarmos no marco, demo-nos conta de que estávamos em sentido contrário ao que estava no mapa, ainda que tivéssemos visto antes os marcos por nosso caminho. Depois de chegar à estrada, decidimos seguir rumo à divisa dos estados de Minas e São Paulo. Tomamos o cuidado para não avançarmos sem ver os marcos na estrada. E pouco depois da divisa dos estados acessamos a Estrada Real com destino à Vila do Embaú. O caminho era basicamente uma trilha que cortava a montanha abaixo. A serra era densa e a trilha cheia de pedras. Uma senhora mostrava-se desesperada com filho porque via ao longe a chuva vindo. Olhamos para a mesma direção e víamos uma neblina se aproximando, mas duvidamos que pudesse ser uma chuva mais forte. Até descermos mais um pouco e começarmos a sentir as gotas de chuvas se intensificando. Mantivemos um ritmo constante de descida. A chuva caía intermitentemente e a trilha tornava-se mais íngreme, cheia de pedras e totalmente molhada. O cuidado foi redobrado para evitarmos uma queda. Depois de muita chuva, mãos e costas doloridas, acessamos a rodovia, já na baixada, e seguimos rumo à Guaratinguetá. Imaginávamos que seria próximo, mas o pedal foi longo e constante. A estrada tinha muitos trechos mais planos e em bom estado de circulação. Queríamos chegar até às 17:00 para evitarmos a chuva da tarde, que já se formava ao longe. Depois de 30km de pedal, aproximamo-nos da cidade e pedalamos ainda um bom trecho. Chegamos ao Kafé Hotel às 19:00 totalmente exaustos, resultado do ritmo forte que imprimimos no caminho, até porque queríamos evitar a gigantesca nuvem de chuva que se formava em torno da cidade e da qual surgiam repentinamente raios e trovões intensos. Foi um dia de muito esforço e concentração. À chegada no hotel foi um alívio. Tomamos banho e saímos para jantar à praça central, uma refeição que caiu super bem. Às 20:40 já nos recolhemos aos aposentos para dormir, porque o dia seguinte seria longo e de muita, mas muita, serra. Em breve novas notícias! Abs e bjs!

 

Estrada Real 9

 

Recuperamo-nos bem do último dia. O café da manhã foi sensacional e foi possível se abastecer bem para mais um dia de jornada, que prometia ser desafiadora. A saída de Guaratinguetá pela manhã foi agradável: temperatura amena, uma brisa refrescante soprava e a neblina ainda ocultava o sol. A meta inicial era chegar a Cunha, distante 52km, e ficar por lá. Mas muito da Estrada Real sendo a própria rodovia, começamos a refazer os planos e já aventávamos a hipótese de avançarmos até Paraty, Rio de Janeiro. O trajeto foi bem distribuído entre terra e asfalto, mas o detalhe ficou por conta da serra absurdamente íngreme que tivemos de encarar. Mas ainda assim foi possível se refrescas em uma pequena queda d'água que caia entre rochas na lateral da estrada. Próximo das 14:00 chegamos a Cunha e paramos em um restaurante  para uma pausa e reabastecimento. Aproveitei para almoçar porque sabia que o circuito para frente seria longo. Seguimos rumo a Paraty pela rodovia. Foram 55km de muito suor e força! Diante de uma subida extensa, o jeito era concentrar-se na marca divisória da estrada e condicionar a perna a aguentar o ritmo. Subimos duas grandes serras por muito tempo. Era possível identificar o seu limite pelo topo das montanhas, se distantes ou próximas. A partir das 12:00 o frescor da manhã já não existia mais. Um calor intenso tomou conta do caminho. Toda vez que subíamos o sol aparecia; quando descíamos tínhamos sombra. Parecia um capricho da natureza. Quando cansávamos, a próxima sombra era distante. A segunda serra foi, definitivamente, interminável. Bronzeávamos com o mormaço que se exalava do asfalto, tanto era o calor. Diversas paradas para o fôlego e, a cada pico alcançado, uma vista panorâmica de todas as montanhas circundantes. Parecia ser um troféu concedido pela natureza pelo esforço empreendido! A paisagem bucólica dominava o horizonte e da passarada o único barulho que se ouvia. Mas a última subida foi interminável! Algo em torno de 5km sem perspectiva de acabar, e com tráfego de veículos pela estrada. A proximidade do pico da montanha indicava-nos o seu fim, mas logo na sequência nos deparávamos com mais subida. Avistamos a placa da divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. O limite dos municípios é exatamente o ápice da montanha. Iniciamos então a longa descida até Paraty. A estrada foi totalmente calçada e estava em boas condições. Mas a sua inclinação exigiu atenção redobrada e muita eficiência dos freios. Por quase uma hora descemos a serra e tivemos de parar por duas vezes para recuperar a força das mãos, até então continuamente fixas nos freios. Até certo ponto era possível sentir o cheiro de algo queimado que vinha dos discos de freio das bicicletas. A decisão de seguir rumo a Paraty, se por um lado permitiu superar metas e vislumbrar as paisagens, por outro exigiu muito do corpo! O fim da serra, e o caminho final até Paraty, foram meio tumultuados: ruas irregulares, excesso de veículos e muita circulação de gente. Atenção redobrada! Chegamos à cidade às 18:00 e no caminho tínhamos decidido tentar embarcar para São Paulo ao chegarmos na rodoviária. Já na chegada ao guichê da companhia não encontramos ninguém, apenas uma moça à nossa frente que precisava urgentemente embarcar para São Paulo. Está também saiu do guichê e assumimos a primeira posição. Surgem então os funcionários da empresa e a informação que não queríamos: não havia mais passagens disponíveis para o dia, apenas duas vagas para o dia seguinte no primeiro horário. Neste exato momento surge a moça solicitando-nos a cessão dos lugares porque ela já estava na fila e precisava embarcar urgente para São Paulo. Olhamos um para a caro do outro, reflexivos e pensativos, e decidimos não criar caso e ceder os lugares para a moça. Passados dez minutos, quando ainda estávamos próximos ao guichê, o funcionário nos aborda questionando se aceitaríamos adquirir dois bilhetes de um passageiro que acabara de aparecer no guichê para cancelar suas passagens para ônibus do mesmo dia.  Imediatamente imaginamos que os astros estavam conspirando a nosso favor. Não pestanejamos e aceitamos na hora! A situação de se hospedar em Paraty e retornar apenas no dia seguinte não foi levada a cabo. Nos últimos nove dias vivenciamos uma experiência diferente: uma viagem por parte da história do Brasil. Por diversas vezes imaginamos o significado daquilo tudo. E de como os desbravadores da época abriram e percorreram aqueles caminhos. A diversidade de paisagens, casas e cidades nos falavam alguma coisa. Percebemos que, sempre a uma distância média de 30km, havia um ponto de referência, que poderia ser uma igreja ou casarão. As nossas elucubrações chegaram à conclusão de que talvez fosse em razão da estratégia de dominação dos portugueses para melhorar a logística de dominação sobre a região do ouro. Também chamou-nos a atenção o fato de que as populações locais pouco sabem do significado de tudo aquilo; não se apropriam - e nem tem a noção de sua importância - da história como atividade econômica local a ser explorada a seu favor  . Percebemos também a quantidade de coisas que estão por ser feitas e construídas. Uma terra com brutal vigor natural, com chuvas regulares e terreno fértil, necessitando de mãos fortes e aprimoradas para explorar todo o seu potencial de geração de riqueza é bem estar. A viagem pela Estrada Real foi uma imersão na história do Brasil. A cada marco histórico uma parte da construção de nossa cultura. Mas foi também uma viagem de superação. Porque o plano original era concluirmos o Caminho Velho em treze dias, e o fizemos e nove. Isto exigiu de nós determinação, concentração, disciplina e tolerância. O balanço é que chegamos ao final muito melhores do que quando começamos: testamos nossos limites, superando-os; praticamos a tolerância, exercitando-a; sentimos a história, vivenciando-a. Tudo isto foi uma "agulha no palheiro" se olharmos a nossa diversidade histórica. Mas a experiência foi - acima de tudo - uma viagem de autoconhecimento e de teste aos nossos limites físicos e psicológicos; de que somos nós e nossas circunstâncias. Os mais de 700km percorridos em mais de 27 cidades, durante nove dias, não devem ser realizados sem um mínimo de preparo. Aos interessados, deve-se procurar conhecer suas nuances e se preparar. Porque se pretenderia cortar uma árvore, gaste o dobro do tempo afiando o machado! (Provérbio chinês).



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 22h40
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Crônica de Minas

Paisagens e Gente de Minas : A paisagem bucólica carregada de significados me passa a sensação de serenidade e paz absolutas. Os contornos dos morros e suas pastagens, que ao centro do vale ostentam enormes casarões com seus labirintos, levam-me à infância repleta de alegrias. Aquela inconfundível fumaça de chaminé logo às cinco da manhã, indicando que sobre o fogão à lenha o café com leite e sal é preparado; que o forno está completamente tomado pelas delícias de pães, bolos e biscoitos. E lá no quarto repousa meu corpo, numa cama de taipa sobre o chão de madeira, com seus frisos abertos que nos permite ver e ouvir a sinfonia tão bucólica das aves, caminhando solenemente à esmo como se estivessem percebendo nossa presença. Como é bom sentir o "barulho" do campo, que nos permite sentir cada momento de forma tão despretensiosa, sem a pressão de ter que deixar isso passar despercebido. Entre o tempo de se acordar e levantar, o espaço é longo. Retira-nos a força de se levantar. Entregamo-nos aos pensamentos de que o dia será muito longo e de que temos muito o que fazer, sem o compromisso de ter que terminá-los. A liberdade e o silêncio dos campos são a regra. O mugido dos animais no curral, o ritual das ordenhas, a montagem do carro de boi, os trabalhadores na labuta sob o sol serrado e diante dos incontáveis metros de plantação são realidades envolventes, que harmonizam-se com o espaço e com aqueles singelos homens de roupas simples e chapéus de palha. Os grãos esparramados pelo terreiro indicam que a colheita foi promissora, que o alimento dos próximos meses foi garantido. Aquele tapete preto tomado de café, com um aroma de galho seco circulando pelo ar, suscita o desejo de degustar um delicioso café oriundo desse espetacular processo de engenho... Nos campos de Minas, as estradas são infinitas e a simpatia de seu povo graciosa. Caminhar por oras à fio nos dá a impressão de que não saímos do lugar, tamanha a semelhança das paisagens. E a cada curva, a cada grupo de pessoas que nos perpassa, está lá absoluta uma fazenda de estilo imperial e imponente, exposta pomposamente para ser apreciada. E aí bate aquela tentação de querer saber o significado daquelas vozes ouvidas ao longe, que ecoam pelas várias grutas ao redor e com atenção redobrada diante das nossas vozes também ao longe. Pelos arredores dos enormes terreiros estão as várias plantações: milharais, cafezais, pomares, arrozais, etc..., combinando com a beleza da terra e da gente... E quando vem caindo a noite, o coral dos grilos e sapos entram em ação. A noite torna-se exclusiva para eles. Aconchegamo-nos confortavelmente na enorme cozinha com seu fogão à lenha e à luz de lamparina, com o som alternado no ambiente entre vozes e silêncio. Como é bom improvisar um cigarrinho de palha e encarnar o puro caboclo da terra ! Contar uma infinidade de "causos" e rir muito, obviamente que ao sabor de um delicioso café puro e à companhia de pessoas pra lá de divertidas... Sem dúvida um momento salutar de intimidade com nossas origens... Volney Gouveia Texto inspirado na obra de Nicolau Fachinetti, Fazenda Veneza, 1877, Coleção Lili Marinho, RJ.



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 21h28
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Viagem: CICLOTURISMO

Destino: Minas Gerais (2016)

Cidades visitadas: 28

Km percorridos : 651km em 12 dias

Velocidade média: 10,3 km/h

Velocidade máxima: 70,6 km/h

Principais cidades: Diamantina, Vau, São Gonçalo do Rio das Pedras, Milho Verde, Três Barras, Serro, Alvorada de Minas, Itapanhoacanga, Santo Antônio do Norte, Córregos, Conceição do Mato Dentro, Morro do Pilar, Itambé do Mato Dentro, Senhora do Carmo, Ipoema, Bom Jesus do Amparo, Cocais, Barão de Cocais, Caeté, Morro Vermelho, Sabará, Raposos, Rio Acima, Itabirito, Cachoeira do Campo, Ouro Preto, Mariana, Viçosa.

Trilha sonora: Clube da Esquina



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h31
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #01

 

Saí às 08:25 da Pousada sob um céu límpido e um sol voraz!!! Pelo menos tinha a brisa para me refrescar! Mas antes de comentar resumidamente o trajeto, estatísticas do dia de hoje:

 

Distância percorrida: 64,1km

Tempo: 06h40

Subida (Altimetria): 1.666mts

Velocidade média: 9,8km/h

 

 

A vantagem da ciclo viagem é que você tem o contato direto com a natureza e seus pensamentos! Mas em muitos momentos não dava pra pensar em nada, mas apenas fazer força pra chegar ao destino, tamanho o número de subidas, curvas e terrenos variados (Terra, pedra, areia, asfalto). Depois de pedalar 133km em Diamantina, o primeiro dia de Estrada Real já estava programado para percorrer 64km, com destino à cidade de Serro (cidade do queijo - mas vou saber da qualidade  somente amanhã). Mas o primeiro infortúnio apareceu à noite antes da partida: a costura do alforje soltou e este ficou pendurado. Por um instante pensei em consertar, mas não teria tempo. Então o jeito foi utilizar extensor para fixa-lo (nada que uma "brazilizada" não resolva!!hehe). Iniciei a viagem às 08:25 e a expectativa era grande, pois inauguraria a bike em trajeto longo e com muito peso (calculo que bike mais bagagem esteja em 30kg). As primeiras horas foram relativamente tranquilas, mas o calor escaldante exigia a ingestão de água o tempo todo (calculo que somente neste dia ingeri mais de 6 litros de água!). Como havia me alimentado bem no café da manhã, não senti fome. Apenas me municiei de frutas, tabletes de fruta e água, mas muita água!!! Depois de pedalado uns 35km, o cansaço começou de fato a bater! As infinitas curvas e subidas me impediam de subir pedalando. É o jeito foi empurrar mesmo. Por diversas vezes parei sob a sombra de uma arvore para descansar e contemplar o silêncio (mas nem sempre isso foi possível, porque o tráfego de veículos era relativamente grande). O número de paradas foi aumentando na medida em que avançava o dia, pois o calor se intensificava ainda mais. Passei por alguns vilarejos. O primeiro foi Val, oportunidade para aquela parada estratégica para pegar água e prosear com o povo local. Depois de muito sofrimento, com subidas íngremes e estrada muito empoeirada (fiquei praticamente marrom de tanto pó), cheguei a Rio das Pedras, Milho Verde e Três Passos (locais muito agitados em função do feriadão; uma invasão de gente de muitos lugares com som de carro ligado em alto volume. Tudo aquilo que menos precisava!). Segui viagem e cheguei na estrada de asfalto (pensei: "ufa, agora será mais rápido!". Ledo engano. Nesta viagem me tornei convicto de que 1 km equivale a 5 km, pois o trajeto é em curva e o pedal rende pouco, principalmente se a estrada tem muito cascalho e areia (para subir é difícil e pra descer é perigoso, então a velocidade é baixa de qualquer jeito!!). Avistei a placa indicado 16km à Serro, o que foi equivalente a 160km, por o caminho tinha muita subida e era aberto (então imagine o sol!). Mas tudo que sobe, desce. Peguei algumas serras que foi possível desenvolver uma velocidade maior (50km/h). Mas sempre com o cuidado redobrado e o freio acionado! Os últimos 3k até chegar na cidade foram difíceis. O esgotamento físico te faz perder ritmo e tudo fica "mais longe". Mas à 16:45 cheguei na cidade e às 17:00 já estava na pousada. Foi tempo ainda para ir ao restaurante jantar (um atendimento pra lá de diferente: fui chamado para me servir na cozinha do restaurante! E sentar numa mesa de interna à casa. Achei aquilo diferente e me senti literalmente em casa! Findo o dia, é hora de ir para a cama e descansar, porque amanhã o dia será de muito calor e terei mais 65km pelo frente! Envio notícias no próximo diário!!! Saudações Reais!!! 



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h21
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #02

 

 

Acordei sentindo um cheiro de pão de queijo que invadia o meu quarto (estava próximo da cozinha). Levantei à 07:00 e iniciei os preparativos para mais um dia. Depois de tomar um vigoroso café da manhã (pão, café com leite, bolo de fubá, frutas, suco, gelatina - eu como tudo isso! Precisava de caloria pra viagem...rsrs) reorganizei a bagagem na bike e o sol que invadia a área já me dava indicações de como seria meu dia. Acabei saindo às 09:00 e já me surpreendi pela tomografia do local. Informaram-me que de Serro até Conceição do Mato Dentro o caminho teria muita descida. E não foi exagero! A viagem foi mais "tranquila". Tranquila entre aspas porque enfrentei várias subidas chatas (aquelas em que vc percorre 1km e parece que está percorrendo 10km). Inicialmente peguei o trecho de asfalto, em descidas longas que me permitiram melhorar a velocidade no percurso. Foram 22km de asfalto! O trecho de terra também foi tranquilo. Pensei que teria muita dificuldade, mas boa parte do caminho apresentava retas longas, subidas relativamente curtas e menos inclinadas. Mas apesar disso tive dificuldades em função do calor exasperante! Parei diversas vezes e toda sombra que encontrava me apossava dela. Foram 6 litros de ingestão de água e energético! No trecho de terra a viagem rendeu mais. Peguei retas longas e com algumas árvores às margens, o que me expunha menos ao sol escaldante do dia anterior. Depois de 30km de estrada de terra, novamente pego a estradar asfalto, o que me ajudou no rendimento. Às 16:00 o tempo começou a fechar e prometia uma chuva forte. Nuvens negras se formaram, descargas elétricas eram frequentes; e tudo escureceu!!! Não quis me arriscar em pedalar na chuva em razão dos raios. Então avistei ao longe uma casinha no alto do morro com uma varanda aonde eu poderia me alojar. Acelerei o pedal porque estava apreensivo com os raios que caiam e tinha a impressão que algum deles poderia me atingir! Ao chegar na casa, acomodei a bike e cobri a bagagem com plástico. Numa casa em frente desta havia uma placa de "vende-se queijo". Como ficaria um tempo à espera do término da chuva, resolvi ir até lá para prosear com o povo. Conheci a senhora Nadir, fazedora dos queijos, e acabei comprando dela 500g de queijo frescal. Aproveitei para tomar meu café da tarde! Ingeri 500g de queijo (nunca como tanto queijo numa tacada só) e bebi um copo cheio de café. A comilança saiu pela bagatela de R$ 7,00. Senti-me revigorado! Foi mais fácil seguir adiante com o estômago cheio (de queijo!!) e com o caminho já sem chuva. Estava próximo do meu destino, Conceição do Mato Dentro. A cidade me surpreendeu. Ouvi comentários não muito favoráveis sobre a cidade mas ainda bem que eles não procediam. A cidade é organizada; tem um trabalho de conscientização do morador local (tipo: mantenha a cidade limpa; sem barulho de "pancadão"; sem trânsito agitado). Fiquei numa pousada muito agradável (Pousada Chácara Santa Inês). Praticamente fiquei hospedado numa casa, com direito a espaço para guardar a bike, e de cuja varanda era possível ouvir Ravel (isso mesmo, música clássica) vindo dos alto-falantes da igreja que fica do outro lado do bairro. Uma experiência bem diferente!!! A estrutura da pousada conta também com uma piscina que me permitiu relaxar os músculos para a próxima jornada. Uma pausa para a janta e depois retomo o diário do terceiro dia! Saudações!



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Escrito por Volney às 13h21
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #03

 

 

O dia amanheceu nublado. A temperatura prometia ficar mais amena no decorrer do dia, o que é ótimo para pedalar. Saí de Conceição e já me deparei com suma subida de 2K! Cheguei ao topo com a perda de muita água! Deparei-me com a placa "Itambé", meu próximo destino, e já entrei no trevo para pegar a estrada de terra. Iniciei uma longa descida! Foi um trajeto perfeito: descida, tempo fresco e uma natureza exuberante. O caminho foi se fechando e a mata avançando sobre as margens da estrada. A cada metro que descia, percebia um silêncio cada vez maior! Estava praticamente num local no qual não havia moradores, nem casas, nem criação, apenas eu - e a bike - no trajeto, ouvindo o canto de cigarras, canários, cães ao longe, enfim, uma orquestra natural....até aqui pensei que seria tranquilo, não fossem duas coisas: os 60km seguintes seriam todos de terra e a previsão de chuva era real. E de fato não foi fácil! A estrada cortava muitas montanhas (então as subidas e descidas eram frequentes). Levava um tempo para subir porque o cenário era de bike pesada, chão de terra...e molhada! Então o pedal não rendia. Mas logo após a subida, vinha a descida. Então pensava: "maravilha, conseguirei desenvolver uma boa velocidade e ganhar alguns mínimos no trajeto!". Mas não. As descidas eram muito irregulares e com muita pedra, o que exigiu muito dos freios. A cada metro que avançava pensava se a bike aguentaria! (E se ela aguentar até ao final da viagem, aí sim vou dizer que ela é um o trem bão mesmo!!). A chegada à pousada em Itambé foi demorada. Chegue à cidade já às 18:00 (1 horas a mais do previsto) e passei em um Posto de Abastecimento para jogar uma água na bike e tirar os excessos de lama, que eram muitos! Uma preocupação q tive era que, pelo fato de ser domingo, como conseguiria encontrar um local aberto para jantar. A funcionária da Pousada me indicou uma senhora nas proximidades, que me preparou uma jantar pra lá de agradável! Voltei para a pousada, tomei um belo banho e fui me deitar, porque o dia seguinte seria de mais desafios, iguais aos desse dia!!! Envio-lhes o próximo diário assim q possível!!! Saudações reais!!!



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h21
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #04

 

 

Acordei às sete e um barulho de chuva vinha do lado de fora. O tempo amanheceu nublado. Tive de me organizar para evitar muita roupa molhada. Ainda sentia certo cansaço  do dia anterior, que foi bastante puxado. A chuva caía intermitente e tinha que rearranjar toda a bagagem (aliás o que me tem exigido um tempinho considerável é o tira-põe de coisas na bagagem). Resolvi sair um pouco mais tarde porque o trajeto seria mais curto (45km) e mais da metade da estrada asfaltada. Saí às 10:40 e cheguei às 16:30 em Bom Jesus do Amparo.  A chuva me fez comprar uma capa para evitar mais roupa molhada e friagem no corpo  (o que menos queria era ficar doente). E tomei muita chuva!!!   O caminho foi cheio de descidas extensas, permitindo boa velocidade. Mas a chuva caiu por diversas vezes. No trecho de terra tive o momento mais difícil de deslocamento: 50 metros de lama para todos os lados e a bike simplesmente travou no chão, tamanha era a quantidade de barro garrada no quadro! Tive de tirar o barro e avançar; tirar o barro e avançar!!! Com muito custo passei do atoleiro e então encontrei outro atoleiro, só que desta vez numa descida, o que facilitou um pouco mais as coisas. Depois do trecho de terra o de asfalto, o que melhorou muito o desempenho. Chegando em Bom Jesus, mudei o plano de reserva da pousada porque a que havia reservado ficava a 15km à frente da cidade, então optei por uma pousada dentro da própria cidade. Na viagem, pela primeira vez percebi que alguma coisa não estava normal na bike: a roda traseira com certo jogo e a estabilidade meio comprometida. Uma leitura previa foi a de que a roda havia entortado. Então a prioridade foi avaliar a extensão do problema e tentar resolver. Se não conseguisse resolver até o dia seguinte, teria a opção de diminuir o ritmo da viagem e torcer para que a roda aguentasse até onde desse, e encontrar uma bicicletaria para a troca da roda...depois contarei o final desta história! Em breve cenas do próximo capítulo! Saudações Reais!!! 



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h20
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #05

 

Ontem não consegui jantar. Os únicos três restaurantes da cidade de Bom Jesus estavam fechados (sempre às 17:00 eles encerram expediente!). Tive de me contentar em comer salgados e beber um energético para manter a força para o dia seguinte. O café da manhã da pousada Real foi bem básico e não deu para repor as energias. Mas o funcionário apareceu com um cacho de bananas e me ofereceu algumas pra levar na viagem. E elas salvaram minha manha! A primeira providência importante era passar na bicicletaria para apertar os aros da roda traseira, que se soltaram com os impactos. Tive duas sorte neste caso: de ter uma bicicletaria na cidade (em Itambé não tinha) e de o problema ter sido "apenas" afrouxamento dos aros. Levamos praticamente uma hora para o conserto. A outra surpresa foi o freio: totalmente consumido (já estava com a base encostando-se ao disco e causando um barulho incomodo). Aproveitamos para fazer a troca do freio da frente e colocá-lo na roda de trás;  e um outro de segunda mão colocamos na dianteira (este foi apenas um quebra-galho). Já ultrapassava das 09:00 quando então passeio no Correios para tentar me desvencilhar de pesos na bagagem. Mas como abria somente às 10:00 resolvi não esperar, pois o caminho seria muito longo pela frente. Saí da cidade e já peguei uma subida sem fim! Alternava pedaladas e caminhadas. Mas no geral o trajeto foi todo de asfalto até Barão de Cocais, quando não peguei a BR (rodovia com movimento intenso de veículos). Passei por alguns restaurantes na estrada e os preços estavam convidativos (10,00 / 12,00 o self-service), além de estar com uma indisfarçável fome. Mas quando chegava aos restantes, estes só começariam a atender entre 10:30 e 11:00, e meu relógio marcava 10:00. Então não quis desperdiçar estes 30 minutos e segui viagem, até chegar ao trevo que indicava Cocais e Barão de Cocais. O trecho Cocais é mais pesado porque todo de terra; já o de Barão era pela BR. Mesmo assim optei por seguir para Cocais, mas no caminho um senhor me disse que pela BR era bem melhor e mais rápido! Acabei então pegado atalho de volta para a BR (descobri depois q este atalho me custou 10km a mais de pedalada). De todo modo estava apreensivo com a chuva e o estado da estrada de terra, então a opção pela BR foi melhor, principalmente considerando que acabei encontrando um restaurante com um preço muito camarada (12,00) para comer à vontade. Então se uniram a fome com a vontade de comer, literalmente! Depois de abastecido, partir rumo à Caeté e depois para Sabará, meu destino final do dia. Percorri um longo caminho (estrada escura em função de operação de uma fábrica de processamento de minério da Gerdau). Iniciei então uma subida sem fim: 8km e 550 metros de elevação! Para amenizar a situação, o tempo estava a meu favor: nublado, sol ameno, temperatura suportável e estrada em ótimo estado! Mas os meus problemas começaram aí: já ao término da subida senti o pneu da frente murcho. Parei para verificar e de fato o pneu estava esvaziando. Imediatamente peguei a bomba e comecei a enchê-lo. Neste momento pensei em qual seria a melhor alternativa: se parar para consertar o furo ou ir enchendo o pneu regularmente até chegar pelo menos na primeira cidade (Caeté). E qual não foi minha surpresa quando o pneu de trás também começou a esvaziar. Parei, avaliei e enchi o pneu. Consegui uma relativa pressão nos pneus que me permitiu continuar o pedal até onde fosse possível. Se de um lado eu tinha o problema dos pneus, do outro tinha acabado de terminar a subida da serra e iniciado uma boa decida. Então resolvi parar regulamente e encher os pneus e continuar o pedal até o primeiro distrito. Fui pegando ritmo e a estrada ajudou. Ainda que a bike estivesse mais pesada, a descida diminuía um pouco a pressão sobre as pernas. Depois de muito pedalar, percebi que estava entrando num pequeno vilarejo e logo avistei um grupo de pessoas. Foi a primeira parada! Perguntei se tinha algum borracheiro é pra minha sorte ele estava ao lado! "Cezinha", como é chamado, foi muito atencioso e prestativo. Muito falante, conversava sobre várias coisas e ao mesmo tempo ia de um lado pro outro pegando os equipamentos para o conserto dos furos (coincidentemente os furos foram muito parecidos e resultado de espinhos espalhadas pelos cantos da estrada). Pneus consertados, pedal na estrada!! Peguei ainda uns 6km de estrada de terra muito incomoda, mas sem barro! (Ufa!). Acessei o asfalto e me disseram que seria assim até Sabará. (Ufa, as coisas retomavam a normalidade). Segui pedalando muito forte para tentar chegar antes do anoitecer em Sabará (cheguei às 20:00, mas pelo menos tive o prazer da vista das montanhas e um pôr do sol magnífico!). A estrada para Sabará, apesar de muito boa, é muita estreita, e o espaço disputado por mim e pelo carros. Tive de manter atenção constante. E sempre antes das curvas pedalava mais forte para tentar entrar no ângulo de visão do motorista que viesse atrás. Comecei a sentir um vento batendo mais forte, indicando que estava próximo do topo da montanha. Comecei a avistar ao longe a estrada entrecortando os morros e me dando uma ideia de quanto ainda teria de pedalar. Pedalei muito, rápido e forte. Uma vista do sol se pondo entre as montanhas foi aparecendo e aquilo realmente era muito lindo. Apesar do horário, não pude deixar de parar para tirar umas fotos. Fiz isso diversas vezes! Até que visualizei a placa indicando Sabará, 9km. Percebi o quão longe ainda estava. Mas para minha surpresa (agradável!), todo o trecho era de descida. E a viagem rendeu muito. Creio ter descido todo o caminho em 30 minutos. E as decidas eram fortes: com muita atenção na descida, tinha tempo de curtir aquela brisa de final de tarde, entrecortada de montanhas! Foi uma descida sensacional!!! Isso exigiu muito dos freios (que tive de trocar em Sabará urgente!), mas cheguei à cidade dentro do que havia planejado para o dia. Em resumo, a estatística da viagem:

 

70,6 km percorridos; quase 6 horas só de pedaladas, mas 09 horas na estrada; velocidade máxima 57km/h.

 

 

Fiquei um dia a mais em Sabará para retomar o fôlego, descansar, arrumar a bike e me livrar de pesos (despachei roupas pelos Correios para tornar a bike mais leve). Hora do descanso e de curtir o Centro Histórico de Sabará, que aliás fica bem próximo da Pousada onde fiquei hospedado (Villa Real). Em breve mais notícias do périplo pela Estrada Real! Saudações reais e obrigado por viajar comigo! (Rsrs) 



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h20
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #06

 

 

Tive uma noite excepcional! Dormi muito! E confortavelmente! Acordei e na sequência ouvi o sino da igreja tocando, indicando as horas (ainda que Sabará não seja uma cidade tão pequena, ostenta ainda um ar histórico e algumas igrejas). Ao chegar à pousada na noite anterior, descarreguei tudo da bicicleta e passei a separar um entulho de coisas já usado: quase 4kg de roupas para despachar pelos Correios para São Bernardo (livrei-me de peso!hehehe). Fui ao Centro, que fica a 400 metros da Pousada, passar pelos Correios e já aproveitei para comprar energético e água no mercado próximo. Aproveitei para caminhar pelas ruas e conhecer a cidade. O sol brilhava forte e o calor era intenso. Mas as sombras dos casarões na calçada eram um convite para se sentar e descansar! Tomei meu energético. Saí com a bicicleta para arrumar o freio (que já estava praticamente no nível mínimo) e acabei por encontrar um sapateiro para costurar o alforje, que rasgou no decorrer da viagem. Foi dia também para almoçar (e jantar!) como pessoa normal e até com direito a uma dormidinha à tarde.  Na pousada lavei a bicicleta e algumas roupas essenciais. O dia termina com a arrumação da bagagem para o dia seguinte, cuja programação seria pedalar até a cidade de Acuruí, distante 60Km de Sabará. O plano era se hospedar por lá e no outro dia partir para a última cidade do circuito (Ouro Preto). Novas informações em breve sobre o sétimo dia da jornada! Saudações Reais!



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h20
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #07

 

 

O dia foi diferente! O desgaste psicológico foi mais presente que o desgaste físico, apesar de este não ter sido nada irrelevante! Saí da pousada em Sabará às 08:50 rumo à Acuruí, tendo de passar ainda por Nova Lima, Raposos, Honório Bicalho, Rio Acima e Acuruí. Pedalei muito mais do que o necessário! Errei o caminho por duas vezes, o que me consumiu quase 40km de pedalada a mais. Na saída de Sabará passei pelo trevo e fui em direção à Belo Horizonte. Como já tinha pedalado muito, resolvi parar para perguntar em um posto policial e me certifiquei de que estava me distanciando da minha rota principal. Já tinha pedalado 10k. Então voltei mais 10K e me localizei no ponto de entrada. Tudo muito confuso, sem sinalização, e algumas pessoas passando informações desencontradas. Mas mantive a tranquilidade e procurei o rumo certo. Avistei o marco da Estrada Real e fui seguindo a sinalização. Passei por uma ponte enorme (talvez 30 metros de altura) e ao final dela me deparei com um guarda municipal que me orientou a pegar outro caminho porque aquele que estava seguindo não me levaria à Estrada Real. Cruzei a ponte novamente de volta e com alguma intuição fui seguindo rumo a Raposos. E passei a visualizar a sinalização, que estava bem aparente e de boa qualidade. Depois de pedalar por umas 2 horas, cheguei à cidade de Raposo. Vilarejo convencional sem muitos atrativos (exceto dois carros de som circulando pela cidade, um convidando os transeuntes para um encontro com um Pastor que viria de Brasília - notícia inútil esta...kkk - e outro anunciando a presença de um circo na cidade). Parei para perguntar sobre o acesso ao Caminho Real e segui adiante. Até a parte da estrada foi tudo bem. Mas de repente me deparei com uma trilha (mas é trilha mesmo! Só passa uma pessoa andando, ou montada na bicicleta, porque empurrar a bicicleta nestas trilhas era de uma dificuldade atroz!). Do lado da trilha corria um filete de água, desviado de uma cachoeira existente morro acima. Na medida em que avançava pela trilha, percebia que a mata ficava mais densa e fechada e o caminho mais próximo de muitos barrancos (era como se estivesse pedalando sob um desfiladeiro). Tive de manter a atenção redobrada porque uma queda naquela ribanceira me causaria muitos problemas. Fui me adentrando cada vez mais na mata pela trilha e tive minha primeira grande surpresa: uma trilha de descida constituída de pedras grandes e irregulares. A primeira preocupação era como passar com a bicicleta por ali. Com certo jeito, fui carregando, no braço, até o final. Então me deparei com um riacho que cruzava a trilha. Ele era de uma largura tal que não dava para pular. Tive de tirar os tênis, atravessar a bicicleta e recalçar os tênis (queria evitar molhar o tênis porque ficaria com os pés molhados até ao final da viagem - acabei colecionando alguns machucados nos dedos dos pés pelo excesso de humidade naqueles dias de chuva). Segui pela trilha, irregular, com muita pedra, e cheia de "abismos". Em alguns trechos desci da bicicleta para não correr o risco de sofrer uma queda. Deparei-me com o segundo riacho e tive novamente de tirar os tênis. Mas a sequência do riacho era uma trilha diferente: uma "escadaria" de pedra. E a preocupação foi com a bicicleta. Tive de carregá-la no braço até a continuidade  da trilha. Segui pela trilha e fui margeando o pequeno rio, que não acabava nunca!  Encontro diante de mim um caminho totalmente inusitado: uma mini ponte, muito estreita, e sob ela passava o próprio riacho (poderíamos chamar a pontezinha de "ponte de rio", ancorara por cabos de aço e de uma altura de aproximadamente 15 metros). Embaixo um rio passando e pedras gigantes espalhadas. Fiz uma primeira tentativa de passar empurrando a bike, mas quando a coloquei na ponte-rio, ela se afundou até a metade. Então conclui que só seria possível passar  com ela sobre os ombros. Coloquei 25 kg nos ombros e comecei a travessia. Os cabos de aço de sustentação da ponte atrapalhavam a passagem. Mantive a calma e fui atravessando bem devagar e de forma muito concentrada. Foram mais ou menos 5 metros de travessia com a bike nos ombros! Confesso que esta foi a parte mais "trash" da viagem com a bike. E a trilha não acabava! Continuei pedalando paralelamente ao riacho até ouvir barulho de cachoeira, indicando que teria algum outro rio por perto. Chegando próximo ao rio, deparei-me com uma altura de uns 3 metros de descida íngreme, como se fosse uma escadaria de pedras gigantes. Encostei a bike e me desci até ao local para avaliar o nível de dificuldade para passar com a bike. De fato era impossível passar pelo desnível empurrando a bike. Então mais uma vez tive de carregá-la nos ombros, com muito cuidado para não escorregar e cair! Ao término da descida teria ainda outro desafio: subir com a bike no próximo desnível, que era um contínuo de pedras irregulares e algumas na cor verde (indicando serem muito escorregadias). Com muita dificuldade subi com a bike nos ombros e continuei pela trilha mata adentro. Na medida em que avançava pela trilha, comecei objetivamente a me preocupar se de fato estava no caminho certo, pois não via mais os totens de indicação do caminho e  sua distancia. Olhava para a minha frente e o que via era apenas mato e uma trilha rala (indicando que poucas pessoas passam por ali). Olhei para cima e percebi que a linha que separava a vegetação do céu ainda estava longe (isso indicava o quão distante eu estava do fim da subida). Já eram praticamente 15:30 e uma decisão eu tinha de tomar: continuar pela trilha rala ou retornar para a cidade de Raposos e seguir para o próximo destino pelo asfalto. Não queria correr riscos de eventualmente me perder e/ou ter de dormir na mata. Então resolvi voltar os 9km que tinha avançado. Voltei para o ponto zero! Em alguns trechos me perdi e tive de voltar, até me reencontrar. Voltei mais 9km e ao chegar na cidade comprei energético e água (nunca bebi gatorade com tanta satisfação!). No caminho para Rio Acima ainda parei para comprar outro energético e algumas bananas (elas são ótimas para se evitar câimbras). A melhor decisão foi voltar porque ainda teria 1 hora e meia para pedalar até a cidade de Rio Acima. O objetivo de chegar a Acuruí foi abandonado, pois ao chegar a Rio Acima, 17:45, fui informado de que o caminho, de terra, seria só de subida e que levaria muito tempo pra chegar, certamente pedalando à noite. Então resolvi passar a noite em Rio Acima para retomar o fôlego! Parei em um hotelzinho barato de estrada para passar à noite e na parte de baixo ficava um restaurante, o que me permitiu jantar e prosear um pouco com o senhor do local. Parti para Ouro Preto no dia seguinte, meu destino final de bike. Mantenho-os informados sobre o ultimo dia da cicloviagem pela Estrada Real. Saudações Reais!



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h19
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CICLOTURISMO ESTRADA REAL (DIAMANTES E SABARABUÇU)

Diário Estrada Real - Dia #08

 

Levantei mais cedo, às 06:30. Como não havia cumprido o programado ontem, decidi sair o quanto antes para evitar chegar à noite em Ouro Preto. A meta de hoje era sair de Rio Acima, passar por Itabirito e depois chegar a Ouro Preto. O mapa marcava 70K de estrada! Tomei um café simples, porém bem caseiro (leite original, queijo original e um café preparado pelo senhor Edil). Saí da cidade exatamente às 07:45. Segui rumo à saída da cidade e o tempo estava com algumas nuvens e o sol já despontando. Imaginei que faria muito calor. Iniciei o trajeto na estrada de terra (seriam 28k até Itabirito) e a viagem parecia que seria mais tranquila. A estrada estava em ótimas condições, não havia subidas íngremes, o cascalho estava em boa medida e não havia muitas irregularidades no solo. Como ainda era cedo, uma brisa soprava mais forte nos picos e nas descidas.  O silêncio somente era interrompido quando se passavam carros. Atravessei pontes e rios e aproveitei para tirar umas fotos. Um marcador na lateral da estrada indicava a distância que ainda faltava até Itabirito (15k). Consegui pedalar de forma cadenciada e mantendo um ritmo constante. Em poucas vezes nestes últimos dias tive as condições de tempo, estrada e bike em perfeita harmonia! Não havia calor insuportável, a estrada estava mais ou menos linear, com mais descidas do que subidas, não choveu e a bike não me apresentou surpresas: combinações perfeitas para se obter rendimento horário na rota. Não demorou e cheguei ao trevo que indicava Itabirito - Ouro Preto. Acessei a Rodovia dos Inconfidentes e parti rumo a Ouro Preto. Ainda não tinha chegado a 12:00! De fato o primeiro trecho rendeu bem! Mas ainda tinha 40K pela frente. E a estrada também foi generosa: muitas descidas e um acostamento largo, permitindo uma pedalada mais segura. Pude parar em vários lugares no decorrer do caminho para me alimentar, hidratar e descansar. Não houve nenhuma surpresa no caminho. Procurei manter o ritmo cadenciado, mesmo nas subidas, para chegar antes do anoitecer em Ouro Preto. O tempo continuou favorável e tudo correu tranquilamente. Às 14:15 virei a curva e me deparei ao longe com Ouro Preto. Tive a sensação de dever cumprido. Ter cumprido aquilo a que me propus. Foram oito dias de muita curtição, conhecendo lugares, gente, sabores, e acima de tudo de aprendizado. Percebi a diversidade deste país. Percebi o quão preocupado ficamos com coisas que não tem importância alguma. Procurei decifrar a forma como as pessoas nestes rincões das Minas Gerais (e isso não é muito diferente em outras regiões do país) pensam sobre a vida e suas realidades. E por incrível que pareça me surpreendi! As pessoas vivem um dia de cada vez, cada qual à sua maneira. Elas convivem com a tranquilidade do interior e a expectativa em torno da modernidade (percebe-se que houve uma mudança profunda no poder aquisitivo dessas populações, permitindo-as adquirir carro, moto, TV a cabo, etc). E isso tem mudado a dinâmica das cidades. Problemas novos para algumas cidades (barulho, congestionamento) e indiferença para outras cidades, que se esforçam para manter sua tradição (reparei na força da religiosidade desse povo!). Outra lição que pude aprender é que as pessoas simplesmente interagem entre si! E algumas até muito mais do que o razoável! A fama de hospitaleiro do mineiro não é força de expressão. Uma prosa sai a qualquer hora e em qualquer canto, bastando arrastar uma "paia de prosa". Em vários momentos fui abordado por residentes que me perguntavam de onde vinha e para onde ia. Das vezes em que precisei de informação, com raríssimas exceções, via um desejo genuíno de me ajudar (alguns paravam o que estavam fazendo para me atender). Chamou-me a atenção também a força desse povo. Um povo que trabalha; que vive simplesmente, sem muitas expectativas em torno da "vida moderna". Nestes meus oito dias "sabáticos" refleti sobre a visão que as pessoas de fora dos grandes centros urbanos pensam sobre os grandes temas como política, economia etc. Vi um mundo muito diferente daquele que a mídia de forma geral insiste em nos convencer pela telinha. Parece que o povo local olha meio alheio às mazelas que passam na televisão, não se deixando influenciar porque continuam tocando sua vida localmente, de forma pacata e tranquila. O depoimento de um rapaz, que trabalha numa oficina em um distrito de Caeté, chamou-me a atenção e me fez refletir. Disse ele: "Não troco isso aqui por nada! Tenho tranquilidade, todos me conhecem e tudo que preciso eu consigo". De fato eles vivem (bem!) com pouco. Quem não tiver a serenidade de perceber que tudo é fugaz, exceto a nossa genuína qualidade vida, estará fadado a viver estressado e desenvolver algum tipo de depressão. Reproduzo aqui uma frase do compositor, cantor e ator, Rolando Boldrin: "É preciso tirar o Brasil da gaveta". Pensei nesta frase quando viajava. Sugiro sempre aos meus alunos viajarem! Mas não a viagem clichê, aquela em que ficamos aborrecidos porque a toalha de banho não está sob a cama; ou então porque o sabonete ou shampoo não são de nosso agrado. Sugiro a eles viajarem para lugares diferentes; saírem da sua zona de conforto e conhecerem outras culturas; interagirem com as pessoas; apreciarem o silêncio quando necessário; estarem abertos a aprender que "todo ponto de vista é a vista de um ponto". Somente assim nos tornaremos pessoas melhores, sem a mania de fazermos a espetacularização do nada. Se é para tirar o Brasil da gaveta, como diz Boldrin, também acho que é preciso tirar nossos medos internos que nos acorrentam, porque sempre procuramos o óbvio; sempre deixamos de ouvir e queremos falar; sempre temos opiniões sobre tudo e nunca ouvimos com atenção o que os outros têm a falar; nunca procuramos perguntar porque as coisas são como são, mas sempre emitimos opiniões carregadas de exageros para tentar convencer nosso interlocutor. Enfim, a viagem à Estrada Real foi uma tentativa de sair do óbvio; de testar meus limites (dentro de padrões mínimos de segurança); de vivenciar um pouco o dia a dia das pessoas que compõem esse chamado povo brasileiro (pensei algumas vezes em Darcy Ribeiro, um dos maiores antropólogos do país, que escreveu o clássico Povo Brasileiro). Procurei também me reencontrar com meu passado de infância, de muita alegria e convívio familiar. Colecionar alguns arranhões, sentir sede, sentir-se cansado nas subidas intermináveis, perguntar-se se conseguiria repouso na próxima cidade, enfim, tudo isso foi muito pouco diante da fantástica experiência que foi conhecer a si mesmo. A Estrada Real me fez viajar por um Brasil longínquo; entender o que forjou nossa cultura e caráter; nossa arquitetura e nosso modo de viver. Agradeço a todos(as) que viajaram comigo nestes dias. Tive-os continuamente em meu pensamento. Isso me dava gás para continuar! Convido-o a refletir e viver estes momentos. A vida é curta e nossas manias são longevas! Simplifiquemos!! Saudações Reais!

 

 



Categoria: Viagem
Escrito por Volney às 13h19
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